Eu estava passando por momentos perfeitos naquele fevereiro de 1985, foi a época que fui mais bonita. Tinha acabado de me formar em Jornalismo e Editoração pela Faculdade de comunicação social Estácio de Sá. Ganhei de presente do meu pai meu primeiro carro: Um fusção meio cor de rosa meio cor de abóbora e da minha mãe uma fantasia pra desfilar numa escola de samba. A Tradição. Na época era moda, todos queriam desfilar na escola dissidente da Portela. E para completar conquistei um estágio no Globo. Tudo caminhava muito bem e no dia do desfile, eu literalmente linda, com corpo perfeito, no melhor momento da minha beleza, fui literalmente arrebatada por um homem. Bonito, envolvente, que logo que pôs os olhos em mim, decidiu que me queria, que não poderia me perder de vista e que iria-mos conversar no final do desfile. E assim se deu. Durante o desfile, ele ficou tomando conta de onde eu ia, o que eu fazia, como me divertia e sambava(coisa que modéstia a parte faço muito bem). Eu estava adorando; cá pra nós, paquerar é às vezes é muito melhor do que o namoro em si, e eu estava me sentindo. Estava com uma fantasia linda, que valorizava meu corpo curvilíneo, com pessoas em animadas e divertidas ao meu lado, e um homem lindo, não querendo me perder e vista. Em plena dispersão da Tradição, logo após a praça da apoteose ele me pegou e resolveu que iria ficar comigo de qualquer maneira, a qualquer custo.
Nada do que eu dissesse naquela hora, o faria mudar de ideia, ele estava muito determinado, então não me restou outra alternativa a não ser contar a verdade. Disse a ele que gostaria de conversar, dei a ele meu telefone e disse que meu motorista estava me esperando, porque eu era filhinhade papai e mamãe, era o meu primeiro desfile, eles tinham me deixado sozinha, mas eu ia encontrar com outros amigos, que já estavam me esperando, e antes que ele insistisse mais eu contei que seria a primeira vez, e que para esse momento eu tinha grandes planos. Ele primeiro riu. Não acreditou. Depois ele ficou serio e me disse que era só eu negar e ele não tocaria mais no assunto. Eu não reagi. Fiquei olhando pra ele também seria e aí ele começou a acreditar. Disse que era mentira. Que ele nunca tinha namorado uma virgem e que não acreditava. Eu respondi que infelizmente não poderia provar se não.... Ele riu e concordou, mas disse que mesmo assim não ia me perder de vista.
Marcamos um encontro pra depois docarnaval, mas e eu fiquei muito feliz quando ele me ligou no domingo de carnaval,(a Tradição desfilou num sábado) , só pra confirmar meu telefone e para ouvir minha voz mais uma vez. Iííí Gostei. Gostei muito. Mais do que eu deveria. Mas era meu ano e eu só estava preocupada comigo. Queria me divertir tudo de uma vez. Tudo o que eu tinha deixado de fazer por quatro anos, eu quis me divertir naqueles dias de carnaval e assim eu fiz. Só fui me lembrar dele novamente depois do sábado das campeãs, quando ele me cobrava a confirmação do encontro. Tudo bem! Vamos ver o que esse cara quer. Como já foi a segunda vez que ele ligou? Resolvi dar uma chance pra essa tentativa de relação séria. E foi a melhor coisa que eu fiz na vida; se não fosse por essa decisão, a história acabaria aqui.
No dia que nós marcamos, fiquei nervosa de ele não ser mais quem eu ainda me lembrava e de eu ser diferente daquela mulata, quase pelada, que ele viu na Marques de Sapucai, e por isso vesti um longo, marcava meu corpo todo, mas cobria tudo. Quando ele chegou, eu já estava esperando na portaria do meu prédio, chovia muito, mas eu fiz questão que ele entrasse no prédio para me pegar. Quando vi aquele moreno entrando na portaria, molhado, mas com um sorriso de dar um laço encima da cabeça, minha insegurança acabou. Lindo! Cabelos compridos e revoltos na altura dos ombros, bigode com cavanhaque, olhos negros como a meia noite, pele clara e cara de safado. Eu tinha certeza de que ia me apaixonar. Se o papo fosse bom como era a situação, eu estava perdida. E ele já começou bem, me fazendo rir, mandando a cantada mais velha que existe:"- Eu acho te conheço de algum lugar!. Ahahahah.
E ele? O que ele demonstrava? Hoje eu vejo que ele também estava encantado. Uma garota! Se fosse uma mulher..., mas uma garota, com vinte e um anos, criada dentro de uma redoma de vidro, pura até de coração? Isso era um achado. E ele não poderia perder a chance de estar menina assim.
Foi perfeito: Me levou para o Amarelinho deCascadura, me falou do trabalho, das perspectivas de progredir na vida, mostrou na carteira as fotos da mãe e do pai(já falecido) e dos sobrinhos, por quem ele já era apaixonado. Falou dos irmãos, me deu o telefone da casa dele e por fim perguntou se era o suficiente para poder me namorar. Nossa! Eu imediatamente disse que sim e aí a história mudou de novo; se nessa hora eu tivesse dito não, não teria aprendido o que era o amor. Porque foi ele o grande amor da minha vida. Eu amei outras vezes sim, mas nenhuma foi igual a essa. Dizem que o primeiro amor agente nunca esquece, é verdade, não esquece mesmo. Já se passaram vinte e um anos e eu ainda penso nele.
Namoramos por seis meses, mas foram muito intensos. Logo no sábado seguinte ele me levou pra conhecer a mãe e os irmãos solteiros e no domingo me levou pra conhecer a irmã casada, o cunhado e os sobrinhos. Foi muito divertido. Eu e ele começamos a brincar com as crianças, elas me adoraram. A irmã, completamente diferente dele: Loira de olhos verdes, lindíssima , mas simples demais me recebeu de braços abertos, mas foi o cunhado dele que estragou tudo, naquele dia eu ainda não sabia disso, mas seria ele que iria acabar com a minha alegria. Foi por causa das opiniões que ele deu, que meu romance acabou. E posso dizer também que por insegurança do meu amor, pois por medo, ele renunciou a nós. Fui muito bem recebida por ele, principalmente porque ele dizia que nós dois éramos os únicos da cor na família, que nós teríamos que nos unir contra os brancos. Era eu , ele, e as crianças(Marco António, Patricia e Renata) contra meu namorado, a irmã dele mais velha e a irmã do meio(essa morena de olhos azuis). Juntos brincávamos de queimado e a gente sempre ganhava, porque eles tinham pena de queimar as crianças e elas se aproveitavam disso. Foi um fim de semana maravilhoso. Me senti muito bem recebida por todos, até pelo irmão dele, o segundo(loiro de olhos azuis), que me pareceu meio arredio, mas que logo depois se enturmou e disse que tinha gostado de mimNaquela época, eu tinha uma aparência que impressionava, papai e mamãe compravam tudo o que eu queria, estava sempre muito bem vestida, mas como não havia sido sempre assim, e tendo recebido uma boa educação dos meus pais, soube me comportar muito bem com todos e foi isso que o conquistou, apesar da minha aparência refinada eu era mesmo é pobre. Fiquei muito feliz. Tive medo de não ser bem recebida. De sofrer preconceito, mas ao contrário, fui recebida com muitos elogios e muito carinho. A família dele gosta da cor.
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